15 abril, 2012

percurso evitado

desci a calçada, contando todas as pedras em que havia tropeçado nos dias de chuva. quando queremos abortar os nossos pensamentos, acabamos por enganar o olhar com o que temos à mão. e eu que esperava consegui-lo com o silêncio delas. já devia ter interiorizado que cobrir a dor é mantê-la ainda mais acesa, como se lhe fosse accionada a vontade de fuga.
no fundo da rua, o café. entrei e procurei fugazmente a última mesa, onde acabei por me sentar e pedir um café. só então reparei no quão vazio estava o ambiente, apesar do fumo do tabaco e dos inúmeros homens encostados ao balcão. não me senti bem e bebi o café num ápice, queimando a língua. dirigi-me à baixa, esperando sentir calor humano mais fidedigno. pessoas a passear, pessoas a trabalhar, pessoas a observar, pessoas a serem observadas, pessoas a dialogar, pessoas em direcção a algo. mas eu não tinha nenhum verbo a conjugar à frente da minha pessoa. eu. somente eu, sem sentido. o vazio que sentira anteriormente não ficaria resolvido com a agitação citadina da baixa. o vazio estava em mim, irremediavelmente em mim e não na natureza.

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